O primeiro sentido do processo
- André Felipe
- 14 de jul.
- 3 min de leitura
Quando falamos sobre o poder transformador do Yoga, que nos conduz à uma vida mais lúcida, mais consciente, com mais discernimento, quando nos propomos a chegar à algum lugar em que nos tornemos seres humanos mais justos, mais fraternos, mais potentes e menos causadores de mágoas, menos sujeitos à sermos moldados pelas mágoas que os outros nos causam, enfim, quando nos colocamos no caminho para nos tornarmos pessoas melhores, mais éticas, pelas pessoas que amamos, pela humanidade e pela nossa própria vivência, não basta querer se sustentar em técnicas. Não bastam posturas, não bastam respirações. Todo o aparato yoguico pode sim se tornar uma ferramenta para tornar a jornada mais possível e suportável. Porém, são apenas princípios para começar a transformar um corpo que foi massacrado, alienado e entristecido. As técnicas trazem a possibilidade de reencantar esse corpo. A partir disso, começar a vislumbrar aquilo que ele é capaz de produzir e sentir vai muito além do que o sistema e suas instituições nos fizeram acreditar. A prática, quando bem conduzida, é uma reorganização das potências internas para algo que está além do eu.
Não é possível pensar Yoga fora da experiência da própria vida. Se a intenção é dissolver a ignorância e os sofrimentos que vivemos e causamos, é preciso entender como isso se dá. Para se pôr no caminho de ser alguém melhor é fundamental entender as conjunturas reais, as condições reais de tudo aquilo que faz eu ser quem eu sou e o mundo ao meu redor ser como ele é. Então o conflito do Yoga acontece sobre a própria estrutura da nossa humanidade que é marcada por forças específicas, situações e condições específicas, que devem ser analisadas, pois são nelas que as contradições acontecem. E repito, o Yoga que se limita à técnicas e apenas aos moldes da estrutura humana, está condenado à viver um estado de ignorância por não enxergar o fluxo da realidade e das ilusões ao nosso redor. Mergulhar no orgânico e no inorgânico. No homem e no animal. No natural e no artificial. Não da para querer ser Yoga sem carregar consigo uma profunda curiosidade e investigação sobre os agenciamentos do tempo em que vivemos. E isso, por si só, demanda uma busca histórica para compreender de onde viemos, como chegamos aqui e para onde nos direcionamos.
Nosso Yoga vai acontecer nas multiplicidades, nos conflitos reais. Ao invés de mistificar a vivência e fugir para um orientalismo imaculado, perfeito, da mesma forma que se busca um suposto estado elevado de consciência, em que o grande sonho, na verdade, se torna o apagamento do corpo na esperança de pôr uma solução final ao sofrimento condicionado a própria existência do sentir, desejar a transcendência como se o retorno para o corpo até o seu próprio fim não fosse o inevitável. É o desejo da alienação anestesiante que fomos tão sedentos a perseguir em cada ação do cotidiano. Vamos então pelo caminho contrário e analisar concretamente as coisas.
É uma ilusão achar que os mesmos mestres orientais os quais tanto nos debruçamos para validar o nosso Yoga eram praticantes de postura antes de filósofos, sociólogos, pesquisadores da experiência humana. Maior ilusão é querer voltar os olhos para um passado simbólico que não é nosso para entender as dores e os conflitos que afligem o corpo capitalista.
O Yoga exige Spinoza, Nietzsche, Fanon, Paulo Freire, Deleuze e Guattari, Regina Navarro Lins, Simone de Beauvoir, Djamila Ribeiro, Marx! E todos os mestres que você puder encontrar no meio do caminho que te façam sair da ignorância da sua forma de observar o mundo e que te leve a atravessar outras narrativas e organizações. Para que assim, a cada distanciamento que você cria entre o corpo e a consciência, entre o ser e o mundo, venha também com a esperança do retorno. E que esse retorno te traga carregado de mais humanidade, mais consciência, mais discernimento, com uma nova organização mais potente e esperança para construir em vida, em afetos, em comunidade, algo que ainda iremos sonhar.

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